quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Leve como uma bailarina

Acabo de ler uma matéria do New York Times, do crítico Alastair Macaulay, que está escrevendo sobre várias montagens de Quebra-Nozes dos Estados Unidos (veja aqui).

Porém, há um grande auê em torno de um review que ele escreveu sobre a montagem do Quebra-Nozes do New York City Ballet, dizendo que a Fada Açucarada, vivida pela bailarina Jenifer Ringer, parecia ter comido um doce a mais. Tanto no Facebook (onde vi o link para a matéria) quanto no próprio site do NYT, os comentários são furiosos sobre o ponto de vista de Macaulay.

Não conheço o cast atual do NYCB, mas encontrei algumas fotos e é óbvio que discordo dele. Mas eu preciso também concordar com algumas coisas do seu texto de defesa sobre o assunto, o físico dos bailarinos (o original está aqui).

Não sei se todas as bailarinas e professoras de ballet têm a mesma percepção que eu tenho, mas, da mesma forma que Macaulay, sou muito exigente comigo e com minhas alunas. Acho que elas já perceberam isso. Sempre que possível eu procuro orientar sobre alimentação, cuidados com o corpo, esse nosso instrumento. Mas eu tenho visto muito mais em sala de aula do que no espelho que alguns físicos facilitam os movimentos da dança como a gente vê hoje.

Vou explicar. Em primeiro lugar, eu dou aula para adultas que estão iniciando ou reiniciando no ballet. Não quero que nenhuma delas se machuque ou tenha problemas físicos ou psicológicos por ficarem horas em frente ao espelho lutando contra seus corpos, tendões, músculos. Elas estão ali para aprender a dançar o ballet, não para serem bailarinas. Mas eu também não posso fingir que ensino um tipo de dança diferente do que eu aprendi, que está ligado à tradição russa, com pitadas da Royal, pinceladas de Balanchine, e tantas outras influências que fizeram de mim a bailarina e a professora que sou. Não me peçam para procurar meio en dehor e um arabesque a 45 graus porque virar a perna para fora ou subi-la a 90 graus é difícil. É difícil mesmo, mas eu quero mais! E é incrível, todas estão inteiras, felizes e progredindo absurdamente.

Na época que minha mãe dançava ballet, eu sei pelas fotos, nenhuma bailarina brasileira era tão magra, nem tinha as pernas finas, pescoço comprido, zero de peito. Acho que os tutus daqueles tempos também não ajudavam, tão curtinhos, mostrando quase todo o derrière. Esta foto de Jenifer Ringer me lembra um pouco esse tipo físico. É ruim? É feio? É menos? Não, de jeito nenhum. Ou Margot Fonteyn não teria sido quem foi.







O problema é que a dança ganha outros contornos quando a Rússia começa a ditar as tendências. Injustiça com quem não nasceu lá! Eu mesma vivo falando que queria quer DNA russo, jesuis. Brigo com meu peso, que é pouco, em busca de uma forma sonhada que nunca vou ter. Peso menos de 50 quilos e por mais que eu fique louca querendo emagrecer, isso não vai me transformar na Diana Vishneva.




Vocês viram o documentário que eu postei aqui? Como as menininhas são escolhidas para entrar para a escola do Teatro Marynski? É pelo físico. Elas tem que ter corpo curto, pernas e pescoços compridos! Alguém me mostra onde pego a senha para isso na próxima encarnação?

Conheço uma pá de excelentes bailarinos que não nasceram sob tal graça e são maravilhosos. São coisas diferentes, porque uma tem a ver com trabalhar com o instrumento que você tem e outra é aproveitar o belo instrumento que você tem e chocar o mundo.

Acho inegável que esses físicos tenham mais facilidade para conseguir transformar bailarinas em bailarinas virtuoses! Essa é a diferença. E talvez tenha faltando ao senhor Macauley explicar que ele esperava ver isso no Quebra-Nozes do New York City Ballet.

Só sei que a dança tem espaço para todos, todos, todos. O que me deixa chateada de verdade é saber que muita gente desiste dela porque não nasceu do ventre da Zakharova. Com amor, carinho, dedicação, suor e les pieds plats, tudo pode melhorar. Muito inclusive o seu corpo.

6 comentários:

Lucienne disse...

M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O!!!! Nada mais, nada menos para esse post. É por isso que tenho paixão pelas suas aulas e por você, amiga, professora e exemplo sempre! POr isso é que o ballet sempre vai me acompanhar, se Deus quiser, até o fim - mesmo com essa minha cinturinha de quibe...ahahahah!!Bjs!

escrevendo com os pés disse...

Simplesmente maravilhoso. Amei :)

Anônimo disse...

sobre esse assunto de físico eu penso o seguinte,físico pra bailarino é aquele e pronto, é lindo,,,mas isso não impede de termos lindas bailarinas "normais".
O que precisamos entender é que não temos o direito de limitar NINGUÉM,o negócio é preocupar-se em aprender e ensinar corretamente,entender o que se está fazendo e saber passar a importancia de se ter bom físico pra executar bem os passos,e saber enxergar os alunos que fazem por vocação e os que querem ser profissionais da área,daí basta sabedoria para instruir cada um.Como diz o ditado:Muitos amam o ballet,mas o ballet ama poucos!

Ana Yazlle disse...

Pois é, gente. Temos que pensar que mesmo não tendo o físico privilegiado, o ballet pode ajudar qualquer um a mudar sua própria história (seja ela no plano físico ou não).
Beijinhos e obrigada pelas visitas!
Ana

Jade Christinne disse...

Concordo plenamente.
Muitas pessoas se sentem intimidadas pelo fato de que o ballet, por muitas pessoas, é considerado uma arte que limita seus artistas a apenas um padrão. Aquela "forminha" chata, em que muuitos tentam se enquadrar. E isso é realmente um absurdo. Pois muitas bailarinas são ÓTIMAS e não precisam ter aquele corpo, que sinceramente em alguns, chega a ser sinistro, para agradar.
Espero que algum dia isso venha acabar de vez. E quero muito que algum dia não existam mais barreiras para DANÇAR e simplesmente DANÇAR.

Parabéns pelo post :)

Beijos

Anônimo disse...

haha! Acabei de descobrir q tenho o corpo perfeito para dançar...Só n tenho coordenação motora...rs