terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Crítica - Quebra-Nozes

Helena Katz, para O Estado de S. Paulo

Foram quatro Quebra-Nozes ao mesmo tempo, dois de São Paulo e dois do Rio de Janeiro. A separação regional carrega uma outra, sobre a qual vale a pena refletir. As duas montagens vindas do RJ vão em uma mesma direção, que provavelmente tem a ver com o papel do Theatro Municipal local como mantenedor da tradição do balé clássico por lá. E as duas produções paulistanas, que não vieram de um ambiente marcado por este vínculo, se distinguem por uma maior autonomia em relação ao compromisso de montar um Quebra-Nozes o mais próximo possível das grandes companhias internacionais.

A produção que o Theatro Municipal do Rio trouxe, assinada por Dalal Achcar, infelizmente, apresentou-se no Teatro Abril, com o público entrando e saindo durante a primeira meia hora do espetáculo. Embora seja uma megaprodução, padece do pior que pode acometer um projeto da sua natureza: é correto e opaco. Todos os ingredientes lá estão, mas a sua junção não resulta no que deveria. Até mesmo o casal trazido de Londres, Roberta Marques (do Royal Ballet) e Arionel Vargas (do English National Ballet), manteve a ausência de brilho que envolveu tudo, do prólogo ao final do segundo ato. Uma pena que a companhia brasileira historicamente ligada aos balés de repertório não tenha conseguido sair da temperatura morna.

Garra e comprometimento não faltam à Cia. Brasileira de Ballet, dirigida por Jorge Teixeira. Formada por jovens e talentosos alunos do Conservatório Brasileiro de Dança, deixa muito claro um fenômeno que merece toda a atenção: o "efeito festival". Os festivais competitivos que mobilizam centenas de escolas de dança por todo o País há cerca de 30 anos, são o reduto de um uso da técnica do balé clássico para a realização de "fogos de artifício" - jargão que identifica aquele tipo de coreografia feita com os passos mais difíceis, mais espetacularizados, mais capazes de arrancar aplausos da plateia.

Jorge e seus alunos são os grandes vencedores desses festivais, fato do qual muito se orgulham e destacam na capa do programa que distribuem. Todavia, uma coisa não afiança a outra, pois são dois mundos muito distintos. De um lado, ficam os festivais e suas coreografias de 5, 10 minutos, criadas como vitrines de exibição de virtuosismos técnicos impactantes. E em outro estão os grandes clássicos, que pedem um outro uso da mesma técnica, que pedem uma concepção dramatúrgica específica, que é o que os transforma em obras de arte.

Foi justamente a falta de polimento na dramaturgia que anulou o brilho no Quebra-Nozes do Theatro Municipal do RJ. Já a produção de Jorge Teixeira, como que ignora o fato de ser feita por bailarinos muito jovens, de 13, 14 anos, e expõe um entendimento precário sobre teatralidade. No que mostrou, existe ainda um outro problema, muito mais preocupante, que se localiza na formação. Há algo de equivocado no trabalho de pés e na dosagem da energia, que ameaça a longevidade da construção técnica que está sendo realizada.

Nessa montagem, os primeiros papéis são dos primeiros-bailarinos no Royal Ballet, de Londres, Thiago Soares e Marianela Nuñes, que exalam uma técnica apurada e uma grande sintonia entre eles. Marianela "latiniza" a sua interpretação, agregando ênfases aos seus acabamentos. Produz uns micro arabescos que dão mais peso "carnal" ao que faz, e talvez seja justamente isso que a destaque na companhia onde é primeira-bailarina. Afinal, sabemos que o olhar estrangeiro sobre nós, latino-americanos, busca aqui o "típico". Thiago, figura imponente em cena, não passou do desempenho correto. Faltou aquele carisma e aquele cuidado nos detalhes que se espera de uma estrela da sua posição.

Tais fragilidades não existem na produção do Cisne Negro porque ela não almeja ser mais uma entre tantas que tentam fazer o modelo habitual de encenação. Ao longo dos 26 anos em que realiza este balé, foi aprendendo a fazer o seu Quebra-Nozes, e hoje, prima pela sabedoria de não pretender reproduzir o que é irreproduzível por uma companhia do seu porte. O zelo com cada um dos seus muitos detalhes, a dramaturgia ajustada para uma coreografia que mostra o melhor de cada participante - é tudo isso reunido que produz a mágica que se espera deste conto de Natal. À Dany Bittencourt, diretora de ensaios, e Patricia Alquezar, sua assistente, deve ser creditada a justeza deste O Quebra-Nozes. A elegância da produção ecoou nas linhas impecáveis de Marcelo Gomes, um partner como poucos, com o brilho que distingue os grandes artistas da dança, que foi acompanhado por Hee Seo, precisa nas suas linhas perfeitas.

O que se percebe nestas três maneiras de apresentar a mesma obra são diferentes formas de lidar com a situação colonizador-colono-colonizado. A resposta dada pelo Cisne Negro à demanda de fazer o Quebra-Nozes em dezembro acabou inventando um jeito próprio de realizá-lo. E a ela se contrapõe uma outra visão, que funciona como o outro lado desta balança. É o excelente Brincadeiras Natalinas, que o Ballet Stagium acaba de estrear no Teatro Sérgio Cardoso. No seu exercício de antropofagia, nos faz ver um outro caminho para a mesma questão. É a expressão mais plena de uma ação de uma inteligente mestiçagem que deu muito certo.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Pré-estreia Quebra Nozes, Ballet Cisne Negro

Quem dança sabe o quanto os flashes de câmeras fotográficas atrapalham quem está no palco. Imagina você ali, num balance plantado, e um espírito de porco solta aquela luz branca que cega e acaba com o equilíbrio? Ou no meio dos fouettés, vai que você bate a cabeça justamente num ponto que resolve te fotografar?
Sou totalmente contra as fotos em espetáculos, mas a pré-estreia do Quebra-Nozes estava divina. Não cansei de elogiar no Twitter, porque realmente me impressionou. Então deixei para tirar algumas fotos sem flash mesmo, do celular, somente na hora da reverence, e quando o Marcelo Gomes apareceu com a também solista do ABT Hee Seo. Emoção demais, que compartilho aqui, apesar da qualidade ser péssima.
Ah, mas quem sabe assim anima vocês irem assistir ao vivo?
:)




terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Três vezes Quebra-Nozes


Dá pra escolher qual produção assistir. O ballet Quebra-Nozes, um clássico natalino de todos os tempos, ganha três montagens em São Paulo. Cada uma com seu charme e com convidados mais que especiais. Não sei qual assistiria primeiro. Ou melhor, sei, sim! Acabei de ganhar ingressos e amanhã vou conferir a do Cisne Negro. Conto tudinho aqui depois.


No Teatro Alfa, a partir de quinta (10), a Cisne Negro traz renomados bailarinos solistas da ABT (American Ballet Theatre), de Nova York. São eles o brasileiro Marcelo Gomes, que é o primeiro bailarino da ABT, a coreana Hee Seo (se apresenta de 10 a 15) e a uruguaia Maria Ricetto (de 16 a 20).


A partir do dia 13, no Teatro Bradesco, o brasileiro Thiago Soares, a argentina Marianela Nuñes e a Cia. Brasileira de Ballet dão sua versão para o clássico. O casal protagonista, que faz parte de uma das instituições mais respeitadas do mundo, o Royal Ballet de Londres, é também a dupla de primeiros bailarinos da Cia.


Por fim, dia 18 estreia o espetáculo do Ballet do Theatro Municipal do Rio. A clássica Cia., que comemora seu centenário, e já tem tradição na montagem de O Quebra-Nozes, apresenta pela primeira vez o espetáculo fora do teatro carioca.

Como convidados, estão outra primeira bailarina do Royal Ballet de Londres, a brasileira Roberta Márquez, o primeiro bailarino do English National Ballet de Londres, o cubano Arionel Vargas, além das revelações Claudia Mota e Márcia Jaqueline.


Todas as apresentações são fiéis ao clássico, composto de prólogo e dois atos. Também em comum, a estrutura do cenário, as músicas ao vivo e a composição dos figurinos. Digno de megaprodução. É escolher, porque o encanto já está garantido.


Programação

Cisne Negro Cia. de Dança

No Teatro Alfa - Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, São Paulo. Tel.: 5693-4000. De 10 a 20 deste mês. 2ª a 5ª, às 21h; 6ª, às 21h30; sáb., às 17h e às 21h; e dom., às 16h e às 19h. Ingr.: R$ 50 a R$ 90

Cia Brasileira de Ballet

No Teatro Bradesco - Rua Turiassu, 2.100, São Paulo. Tel.: 3670-4141. Dias 13, às 16h; 19, às 21h; e 20, às 16h. Ingr.: R$ 80

Ballet do Theatro Municipal do Rio

No Teatro Abril - Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411, São Paulo. Tel.: 2846-6060. Dias 18, às 21h; 19, às 17h; 20, às 16h. Ingr.: de R$ 80 a R$ 140

Cursos de férias - Verão 2010

Complementando a informação dos cursos de dança para as próximas férias, segue o que recebi da Pulsarte.



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