sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Troca tudo!



Acabei de ver o jornal Metro aqui no trabalho e lembrei que não posso deixar de comentar de Les Ballets Trockadero de Monte Carlo.



Para quem não tem idéia do que estou falando, os Trocks surgiram, em 1974, no circuito off-Broadway de Nova York como um grupo de homens bailarinos que dançam, nas pontas dos pés, papéis exclusivamente femininos. Com técnica apurada, eles conseguem dar aos ballets clássicos de repertório maior virtuosismo, já que alguns passos, piruetas e saltos são considerados difíceis para mulheres, mas os homens fazem com facilidade. E daí nasce a piada, porque os bailarinos fazem cara de que nada está acontecendo enquanto se jogam nos papéis de Paquita ou Odete/Odile no Lago do Cisne, entre outros, com figurinos fiéis ao estilo, levando em conta a tradição clássica, mas com adereços inusitados e muito humor. E, o melhor, com um físico masculino usando sapatilha rosa tamanho 44!

É possível, por exemplo, ver um cisne se depenando todo, uma Paquita de óculos gatinho e as bailarinas do Grand Pas-de-Quatre de Pugni se provocando no palco tal qual Lucile Grahan, Carlotta Grisi, Fanny Cerrito e Marie Taglioni devem ter desejado fazer em 1845, quando esse ballet foi criado para elas, as maiores estrelas da época.


Há quem pense que tanta comédia e purpurina tenham feito do Trockadero uma companhia travestida e não muito séria. Grande engano. Os artistas têm formação profissional e fizeram parte de grandes companhias de dança de vários países. Mas agora se dividem papéis masculinos e femininos e adotam perfis como Velour Pilleaux/Ida Nevasayneva, nomes de guerra (e trocadilhos deliciosos) de Paul Ghiselin, um dos meus preferidos.

É comum os Trocks caírem das pontas ou dançarem contemporâneo ao som do estouro de papel-bolha, provocando todos os "segmentos" dançantes. Mas seja qual for a idéia, eles fazem mais ou menos o que querem e aquilo que todos que dançam fazem escondidos atrás das cortinas rindo muito. Verdadeira arte.


Amostra grátis de uma Morte do Cisne hilária, com a grande Ida Nevasayneva


Final de Paquita

Vale a pena visitar o site.

Vale a pena ver ao vivo: Teatro Bradesco, de sexta-feira (27) a domingo (29).



quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Black total

Bailarinas e bailarinos, atendendo a pedidos, e seguindo dicas preciosas de minhas alunas queridas, Clóris (chefa, amiga, pé de colo incrível!!!) e Bárbara (dedicada master, as unhas mais coloridas de Manhattan), aí vão alguns vídeos da estreia mais esperada do ano:
Black Swan.
E, só para lembrá-las e mostrar um pouco do que eu acho que é a origem do filme, aí vai também um pedacinho do meu cisne preferido de todos os tempos, seja preto ou branco, a grande Yulia Makhalina. Quem faz minha aula tem que saber que a música do primeiro exercício da barra é o adágio do pas-de-deux do Cisne Negro. E nunca mais um plié será o mesmo, certo?

O filme:



E de onde ele vem:



Para saber mais:
O ballet O Lago do Cisne é o clássico dos clássicos. Com a sublime música de Tchaikovsky e libreto de Vladimir Begitchev e Vasily Geltzer, foi encomendado pelo Teatro Bolshoi em 1876. A história beeeeeem resumida é a seguinte: o príncipe Siegfried está completando 21 anos e precisa escolher uma noiva. À noite, ele resolve sair para caçar. Ao se aproximar de um lago repleto de cisnes, vê que eles se transformam em jovens princesas. Odette, a Rainha dos Cisnes, dança com Siegfried e lhe conta que ela e as outras princesas são vítimas do feiticeiro Rothbart, que as condenou a viver como cisnes durante o dia, só voltando à sua forma normal da meia-noite ao amanhecer. E o encanto só se quebrará quando um jovem de coração puro lhe jurar fidelidade. O príncipe declara seu amor e convida-a para o baile do dia seguinte, onde quebrará o encantamento, escolhendo-a para ser sua noiva.
No baile, a Rainha-Mãe lhe apresenta seis princesas, mas ele se mostra indiferente, esperando ansiosamente por Odette. Um nobre chega num estrondo, na verdade é Rothbart disfarçado com sua filha, Odille, disfarçada de Odette (o cisne negro, sacaram?). Siegfried dança com ela, enquanto o cisne branco, na janela, tenta inutilmente chamar sua atenção. O príncipe anuncia que já fez sua escolha, e só então percebe que ainda não era meia-noite e aquela não poderia ser Odette. Desesperado, Siegfried corre para o lago, onde encontra Odette. Os amantes se jogam no lago, e nesse momento, a magia é quebrada.
Bom, acho que aqui talvez haja algumas pistas para o que vai ser o filme. Eu acho o tema do Lago atualíssimo. Ele pode parecer um conto de fadas, mas há grandes reflexões mascaradas nos cisnes. É o bem lutando contra o mal. A arte da sedução, o amor, tudo aquilo que a gente vive hoje, vai viver sempre.

A trama do filme Black Swan, ambientada no mundo do New York City Ballet, traz Natalie Portman como Nina, uma bailarina que não consegue distinguir se sua rival, vivida por Mila Kunis (Ressaca de Amor), é real ou uma ilusão. No elenco: Winona Rider e Vincent Cassel. Black Swan está previsto para estrear ainda este ano.
Pode ser impressão minha, mas acho que vamos encontrar vários elementos do libreto original do Lago aqui.




Para terminar, um pouquinho sobre Yulia Makhalina, a moça do segundo vídeo aí de cima. Ela foi a primeira de uma nova safra de bailarinas Kirov, no início dos anos 90, diferente das gerações anteriores, pela altura e magreza (raivaaaaaaaa), e apelidada de "dream team do Kirov". Tecnicamente brilhante, especialmente em suas aberturas, Yulia deu nova vida às interpretações dos clássicos. Sua Odette tem uma dimensão trágica, mas extremamente chique. E sua Odille é sedutora, sem ser caricata.


Espero que tenham gostado dos meus cisnes negros.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Entrechat

Estou chocada com os entrechats da variação do menino do vídeo.
Vale a pena ver estes trechos do pas de trois de O Lago do Cisne.



ENTRECHAT - Termo provavelmente originado do italiano capriola intrecciata, ou seja, cabriola cruzada. Um salto de quinta posição no qual o que o bailarino, no ar, cruza as pernas uma, duas, ou três vezes. No entrechat quatre, six e huit o bailarino cai de volta sobre as duas pernas; no entrechat trois, cinq e sept ele cai de volta em cima de uma perna só, a outra ficando em coupé derrière ou devant. O entrechat deux é conhecido como changement battu ou royal.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A Cinderela melindrosa de Nureyev

Frederick Ashton foi responsável pela Cinderela de Rudolph Nureyev. Explico: em 1965 ele foi convidado por Nureyev, então diretor da Ópera de Paris, para remontar sua versão para o Royal Ballet.
O pedido foi recusado, assim Nureyev embarcou em uma nova montagem: a sua. Suas primeiras ideias eram convencionais, mas o designer escolhido, Petrika Ionesco (lembro desse nome na Faculdade de Letras), sugeriu transpor a história do conto de fadas para o mundo do cinema.
Como relatado pelo Sr. Ionesco, Nureyev não concordou no princípio, mas, em seguida, abraçou a ideia. Afinal de contas ele era um ávido fã de filmes de amor do cinema dos anos 30, Hollywood, musicais, Fred e Ginger, e, especialmente, Charlie Chaplin.
Cinderela chegou ao palco em 1987 com Sylvie Guillem no papel-título.
Neste cenário, a parte central do corpo de baile é fixada em um estúdio de cinema, a fada madrinha é transformada em um produtor de cinema (interpretado por Nureyev na produção original), o baile se torna uma filmagem caótica, o príncipe torna-se o belo ator.

No primeiro ato, Cinderela, ainda Gata Borralheira, aparece olhando sonhadoramente para um cartaz de cinema de Chaplin, O Garoto. Essa é a primeira de muitas referências cinematográficas: há também um pouco de Chaplin em uma pequena variação em que Cinderela só veste as calças folgadas e chapéu-coco e dança para si mesma, um King-Kong, um item burlesco, uma sequência de Fred e Ginger, as aparências do Keystone Cops e Groucho Marx, e muitos episódios do tipo. A "fada madrinha" aparece no palco vestida como um aviador (talvez uma referência Howard Hughes).

O grande inimigo dos dançarinos é o tempo. Nureyev sentia isso profundamente e lutou contra o passar dos anos para manter sua carreira. Esse tema surge fortemente em Cinderela - e é enfatizado por Nureyev. Vem a meia-noite, Cinderela tenta fisicamente parar o relógio gigante que domina o palco, no final do Ato II. Anteriormente uma figura Mae West se transforma em uma mulher corcunda de idade como uma espécie de aviso e, mais tarde, no Ato III, Cinderela reluta em assinar o contrato do filme até que o produtor lembra que a juventude e a beleza são transitórios.

O terceiro ato abre com o filme Star. O produtor induz Cinderela a assinar o contrato. Um triunfo do amor, um triunfo sobre o tempo, mas também um triunfo do mercantilismo: parece que o motivo principal da fada madrinha é conseguir esse contrato.
A reformulação da história de Cinderela em um cenário de Hollywood é bem sucedida e é engenhosamente manipulada, embora alguns dos detalhes sejam fáceis de perder. O fato de ver nesse vídeo tudo o que aprendi sobre a Belle Époque, a Semana de Arte Moderna, e bailarinas melindrosas destemidas vale o clique. Eu não gosto muito do ballet Cinderela, nenhuma das versões me faz querer aprender desesperadamente a coreografia. Mas ainda estou babando com essa riqueza de detalhes, figurino e história por trás do conto de fadas que toda menina adora, seja Disney, seja Hollywood, seja Ópera de Paris.