sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A Cinderela melindrosa de Nureyev

Frederick Ashton foi responsável pela Cinderela de Rudolph Nureyev. Explico: em 1965 ele foi convidado por Nureyev, então diretor da Ópera de Paris, para remontar sua versão para o Royal Ballet.
O pedido foi recusado, assim Nureyev embarcou em uma nova montagem: a sua. Suas primeiras ideias eram convencionais, mas o designer escolhido, Petrika Ionesco (lembro desse nome na Faculdade de Letras), sugeriu transpor a história do conto de fadas para o mundo do cinema.
Como relatado pelo Sr. Ionesco, Nureyev não concordou no princípio, mas, em seguida, abraçou a ideia. Afinal de contas ele era um ávido fã de filmes de amor do cinema dos anos 30, Hollywood, musicais, Fred e Ginger, e, especialmente, Charlie Chaplin.
Cinderela chegou ao palco em 1987 com Sylvie Guillem no papel-título.
Neste cenário, a parte central do corpo de baile é fixada em um estúdio de cinema, a fada madrinha é transformada em um produtor de cinema (interpretado por Nureyev na produção original), o baile se torna uma filmagem caótica, o príncipe torna-se o belo ator.

No primeiro ato, Cinderela, ainda Gata Borralheira, aparece olhando sonhadoramente para um cartaz de cinema de Chaplin, O Garoto. Essa é a primeira de muitas referências cinematográficas: há também um pouco de Chaplin em uma pequena variação em que Cinderela só veste as calças folgadas e chapéu-coco e dança para si mesma, um King-Kong, um item burlesco, uma sequência de Fred e Ginger, as aparências do Keystone Cops e Groucho Marx, e muitos episódios do tipo. A "fada madrinha" aparece no palco vestida como um aviador (talvez uma referência Howard Hughes).

O grande inimigo dos dançarinos é o tempo. Nureyev sentia isso profundamente e lutou contra o passar dos anos para manter sua carreira. Esse tema surge fortemente em Cinderela - e é enfatizado por Nureyev. Vem a meia-noite, Cinderela tenta fisicamente parar o relógio gigante que domina o palco, no final do Ato II. Anteriormente uma figura Mae West se transforma em uma mulher corcunda de idade como uma espécie de aviso e, mais tarde, no Ato III, Cinderela reluta em assinar o contrato do filme até que o produtor lembra que a juventude e a beleza são transitórios.

O terceiro ato abre com o filme Star. O produtor induz Cinderela a assinar o contrato. Um triunfo do amor, um triunfo sobre o tempo, mas também um triunfo do mercantilismo: parece que o motivo principal da fada madrinha é conseguir esse contrato.
A reformulação da história de Cinderela em um cenário de Hollywood é bem sucedida e é engenhosamente manipulada, embora alguns dos detalhes sejam fáceis de perder. O fato de ver nesse vídeo tudo o que aprendi sobre a Belle Époque, a Semana de Arte Moderna, e bailarinas melindrosas destemidas vale o clique. Eu não gosto muito do ballet Cinderela, nenhuma das versões me faz querer aprender desesperadamente a coreografia. Mas ainda estou babando com essa riqueza de detalhes, figurino e história por trás do conto de fadas que toda menina adora, seja Disney, seja Hollywood, seja Ópera de Paris.

Um comentário:

Anônimo disse...

bom comeco