sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Para Todo o Sempre

Post do ótimo Rafael Cortez (é, aquele do CQC mesmo). São algumas breves notícias da bailarina brasileira que mais me inspirou nesta vida, Andrea Thomioka.
Original aqui.


Em 2005 eu conheci uma bailarina. Chama-se Andrea Thomioka. Eu, bem leigo em matéria de balé, não sabia que ela era a grande Thomioka da dança clássica, a única brasileira a ganhar o importantíssimo prêmio em Varna, na Bulgária, a gigante que dançou Gisele, Lago dos Cisnes e tantas outras coisas mais como solista em inúmeras companhias, festivais, etc, etc. Enfim, a Thomioka é uma referência na área dela. Hoje dança Contemporâneo no Balé da Cidade de São Paulo - ato que lhe exigiu uma coragem fora do comum... E ela bancou e manda muito bem!
O fato é: conheci a Thomioka e ela me contou que estava dirigindo - junto com o ótimo Guivalde de Almeida - a Cia. Brasileira de Danças Clássicas. E que ela queria montar um balé em cima de músicas do Baden Powell, o notável violonista. Eu, por acaso, contei que tinha umas peças, compostas por mim mesmo, para violão-solo. Ela quis ouvir e isso mudou tudo. Ela curtiu as músicas e, porreta como sempre foi, me intimou: a galera dela ia dançar as MINHAS peças, não as do Baden.
Eu, claro, me amarrei. Seria tranquilo: gravar tudo em estúdio e ver o corpo de baile executando os movimentos coreografados pela Thomi de acordo com os acordes. Eis que ela me propôs algo ainda mais ousado: tocar as músicas ao vivo durante as danças.
E foi asssim que nasceu o balé "Para Todo o Sempre". Sete peças minhas, tocadas ao vivo por mim e dançadas por uma turma que fez de tudo: pas-de-deux, solo masculino, feminino, grupo, etc. Mudou minha vida. Foi por causa do balé que eu estudei mais a fundo minhas composições. Que voltei a fazer aula. Que resolvi gravar o CD para ter uma amostra do trabalho musical que o público pudesse levar para casa após as apresentações... E foi depois do balé que eu entendi qual era a minha praia com música: saquei que eu era violonista-compositor, que resolveria meus conflitos de identidade musical tocando as minhas peças e os meus arranjos para violão. Esse é o maior conflito de qualquer violonista - se encontrar no mercado musical. Serei recitalista? Arranjador? Compositor? Clássico? Contemporâneo? Me dou bem em música de Câmara? Etc, etc. Eu me achei e sigo a linha das composições e arranjos desde o trabalho com a Thomioka. Ainda que esteja meio enferrujado (mas isso é esfera de outro problema - de ordem técnica)...
O "Para Todo o Sempre" só rolou duas vezes. A gente pretendia viajar o Brasil - quiçá o mundo! - com o trabalho. Mas a equipe envolvia umas 20 pessoas, cada qual com uma agenda mais louca que a outra... e o balé exigia muita dedicação. A Thomioka pegou pesado e exigiu coisas virtuosísticas para os bailarinos e bailarinas. Releituras com o corpo de estados de espírito que eu pensei quando compus as peças. Em "Badica", só pra vcs terem uma idéia, ela fez dois homens mesclarem uma dança com duas mulheres para simbolizar a energia masculina e feminina que a Badi Assad passa nas músicas dela para mim - ela, a Badi que homenageei na composição. A Thomi se apropriou da idéia de cada uma das canções e soube bem o que cada representava. Deu forma a cada idéia através do corpo dos bailarinos. Muitas vezes se utilizou de uma licença poética, de uma liberdade de criação... Mas estava tão envolvida e consciente do que eu fiz, que acertou em cheio sempre. Parecia até que tinha composto as músicas comigo!
Os artistas do balé sofreram muito para pegar as coreografias. A Thomi, como toda boa bailarina, era muito exigente. A galera tava muito acostumada com passos clássicos e delicados, e as leituras dela exigiam jogo de cintura: força, um pouco de virtuose, delicadeza, tudo junto. Alguns movimentos eram mesmo diabólicos de difíceis.
Foi tudo muito duro pra mim tbm. Tocar em balé significa tocar com orquestra. Os bailarinos precisam da precisão musical de um metrônomo, e vc como músico não deve usar um na apresentação (claro). Era preciso tocar tudo no andamento acordado e lembrar de pausa por pausa, respiro por respiro. Em cada nota havia uma perna subindo, um rodopio, um movimento de braço, etc. Foi a coisa mais difícil, desafiante e gratificante que já fiz na vida até hj. Vejo desafios recentes que são fichinha perto daquilo. Eu tive de estudar mais que nunca, fazer shiatsu, reeducação postural (tive vários problemas de tensão e quase uma tendinite na mão direita) e estar em cada um dos ensaios - muitos, todos bem cedo por sinal, e longe da minha casa. Fora que fiz as 02 sessões no Teatro Paulo Autran, em SP, para uma platéia seleta, lotada e criteriosa. E tinha de ser sempre com a precisão de um maestro... Sendo que qualquer músico solista tem o (mau) hábito de tocar tudo muito mais rápido ou devagar qdo se apresenta. Culpa do nervosismo.
A Rede SESC-Senac de TV filmou tudo e lançou um especial do trabalho na TV Fechada. Passa até hj na Net. Volta e meia alguém me diz que viu.
Uma pena o trabalho ter sido tão exaustivo para só render duas sessões. Mas tenho tanto orgulho de mim, da Thomi e da galera que dança qdo revejo o vídeo... como demos conta, como ficou bom! E que legal ter o especial em DVD pra lembrar disso. Que bom ter essa experiência como referência de desafio. Já fui tão raçudo, posso ir muito além. Ah, e claro... uma coisa sempre puxa a outra: o balé acabou mas, em seguida, criei um duo com a Thomi. Para ela compus uma das minhas peças prediletas - "Quando Danço Com Seu Corpo". Eu tocava algo que era lido pelos movimentos dela... E isso nos levou a uma experiência única que teve seu ápice no XI Festival de Danças do Mercosul, na Argentina, qdo abrimos juntos a programação.
O que vcs vão ver é o final do balé. Toco "Elegia da Alma" e o grupo todo se reúne. Notem como é bonita e expressiva a bailarina japonesa. Chama Priscila Yokoi. Tá fazendo carreira nos EUA. A emoção dela no close que a câmera captura ao término da peça é a expressão máxima de tudo que penso e que já disse aqui sobre essa minha composição. De bônus, vcs podem me ver no cantinho da tela, no fim, e nos aplausos com a turma toda - estou com um cavanhaque, por sinal.
Um abraço!

Um comentário:

escrevendo com os pés disse...

Post lindo, lindo lindo.

bailarinos brasileiros, musica brasileira, para nós um povo brasileiro.


Parabéns, Ana.